“Numa coivara de fogo, morreu tremendo de frio.”
Zé Limeira, o poeta do absurdo.
É sempre um abismo deflorar a virgindade dos espaços grávidos de sentido.
Sobre o abismo.
Não sei que misterioso chamado é esse — a atração do precipício. A cada encontro, me defronto com o chamado da morte. Por mais que estejamos decididos a se lançar, o corpo precisa aprender a ter coragem, do contrário não há salto, entrega, morte.
Quando o medo mastiga meus órgãos, me deito e arrasto o corpo até a borda de olhos fechados. Abro-os e meu olhar se perde na vertigem; escorrego numa longa queda.
Quando estarei pronto pra saltar?
Pequenas mortes a cada encontro. Caminhar por essa via negativa, pelo caminho da eliminação, para quem sabe nos “ENCARARMO-NUS”. Lembrava sempre aos discípulos o mestre Grotowski: "representamos tão completamente na vida que, para fazer teatro, bastaria cessar a representação".
Aos poucos, silenciamos a palavra e permitimos que comunicações mais sutis se estabelecessem. Como captar o segundo do teatro? Essa faísca que misteriosamente lhes toma como um raio, vocês já sentiram esse segundo? Conseguiram guardá-lo?
Sintonizar as energias, conectar as presenças para “um sagrado dizer-sim, para o jogo de criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim”, assim falou Zaratustra.
Como não esvaziar a nossa angústia em falatórios? A angústia é fundamental. Deixá-la crescer célula rebelde até que se exploda em “obra-de-arte-viva” — metástase que se imponha para além das nossas vaidades e vilezas.
Vazios, não. Os espaços são cheios, grávidos de sentido. Os corpos se comunicam; abertura. O corpo é via de trânsito, onde as informações circulam. As imagens, sentimentos e tensões necessárias para criação brotarão de mim, da minha ancestralidade. Diz Sócrates: “Como você vê, Menon, eu não estou ensinando nada, só perguntando.” Nesse processo, parece-me, o saber perguntar (instigar/ provocar) do encenador — que acredita que todo material da criação nos habita — será o gatilho e, quando disparar, abrirá portas e janelas para que o humano possa entrar nessa “Terra Queimada” e sair dela; descansar o olhar no canavial através da janela; deixar que o pó preto da cana invada nossas casas (corpos) pela fresta da telha.
Esses primeiros encontros visaram à criação de um ambiente físico-ideológico, que norteará nossos caminhos e descaminhos. Importantes passos foram dados. Cambaleantes, ainda, como um trem que sacode, mas não descarrilha.
Psicografado na manhã do dia 11/11/2011,
pelo médium Durval Cristovão,
ditado pelo espírito Menino do Engenho.

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